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terça-feira, 19 de maio de 2009

Um Elogio à Loucura

Encontrei o texto de Andréa Trompczynski, por acaso, na web, e adorei!
Como estou adorando tudo o mais que encontro dela, vale a pena, desfrute:

[Beijos insanos,
Hela]

Um Elogio à Loucura

Andréa Trompczynski
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Emanuelle Crialese nunca leu Guimarães Rosa, mas algumas verdades são eternas e pessoas em diferentes lugares e épocas têm semelhantes impressões. Respiro, segundo filme de Crialese, de 2002, e Sorôco, sua mãe, sua filha, conto do Rosa, dizem exatamente o mesmo. Fazem de tudo para afastar o caos, internar os loucos. E, quando finalmente conseguem, enlouquecem eles. Ou trazem o caos de volta, por não conseguirem viver sem.

Grazia (Valeria Golino) é uma bipolar típica. Com oscilações de humor imensas, da euforia para crises depressivas, dando o quê falar para as mulheres rezadeiras do povoado de pescadores em Lampedusa, sul da Sicília. A família tenta protegê-la até as últimas consequências. A mesma tristeza de Sorôco, empurrado pelo povo a internar na capital a mãe e a única filha. Mas no conto, a loucura volta através do próprio povo, que começa a cantar a música insana e disparatada que as mulheres cantavam antes e que "ninguém não entendia". No filme, é Grazia quem volta depois de fugir para não ir ver o doutor na capital que lhe trataria, e, é acolhida então na cena mais perfeita do filme (só aquele azul inconcebível do Mediterrâneo, nesta cena submersa, nem precisava uma boa história).

Quando o tema é loucura, é impossível eu não me voltar e parar um pouco para ver do que se trata. Estudei enfermagem para trabalhar numa clínica psiquiátrica, há muitos anos. Acabei internada em uma. Sou bipolar. E já vi o Sorôco em meu pai quando precisei de um internamento. Não, um bipolar não precisa de choques, não imaginem isso. As clínicas de hoje são como um Spa mais simples. Você descansa e tenta parar um pouco. Porque a velocidade do pensamento de um bipolar é tão acelerada que às vezes acontecem umas estafas. E é preciso parar um pouco para o motor esfriar. As pessoas um pouco mais velhas devem conhecer a mesma "doença" com outro nome: Psicose Maníaco-Depressiva (que, tenho certeza absoluta só mudou em algum congresso psiquiátrico internacional por unanimidade de votos depois do Norman Bates, que deixou a palavra assustadora). Para quem viu o filme Um Estranho no Ninho (ou o livro de Ken Kesey, sem dúvida, menor que o filme; quando o Kesey disse que nunca veria o filme de Milos Forman, não sabia o que estava perdendo) é a mesma doença do Randle Patrick McMurphy. Mas tem vários estágios, é claro.

Não quero falar aqui sobre a parte triste da loucura e sofrimentos que existem por causa dela, porque a parte triste também está nos não-loucos. Mas sobre a parte mágica. Sobre a capacidade que ela tem de te libertar. Sobre um olhar que uma vez vi numa esquizofrênica no meu estágio de enfermagem num hospital psiquiátrico (hospício, não há palavra melhor), olhar de liberdade. Uma inteligência que assombrou-me. Como aquele olhar do Andy Kaufman que o Jim Carrey conseguiu mediunicamente fazer tão bem no filme do também aficcionado pelos não-normais Milos Formam (afinal ele também fez o filme do louco Larry Flint).

Uma vez um professor emprestou-me O Elogio da Loucura, do Erasmo de Rotterdam com um prefácio dito que apenas fez-me devorá-lo assim que o tive em minhas mãos: "tem certeza que você está preparada para ler isso?", eu disse: "não", e ele: "ótimo, aqui está, nunca sinta-se preparada para nada, é a morte".

Mas não me rendi ao Carbolitium. E não me renderei. Aprendi a aproveitar os momentos de euforia e até mesmo os depressão, e não consigo entender como as pessoas tentam fugir tanto da solitude e da tristeza. É um sentimento que precisa ser vivido e degustado como os outros. Não anestesiado com antidepressivos (ou televisão, comida, compras).

Geralmente é muito engraçado. Como por exemplo olhar para uma parede de azulejos e calcular quantos têm, porque o cerébro precisa estar sempre pensando. Dou muita risada. Meu filho de cinco anos perguntou uma vez o que era que tinha de diferente dentro da minha cabeça, "ah, filho, não é muito não, apenas quando uma pessoa está descascando batata, como eu agora, está pensando em descascar a batata e a mamãe está pensando em distorções no espaço-tempo, ou em como deve ser o cheiro do rio em Pasárgada e se o Bandeira está nadando lá agora com a Mãe D`água e as prostitutas bonitas", e o Juca: "puxa, que legal mãe, acho que você está certa, o rio de Pasárgada é muito mais importante que as batatas, não é?". É sim, filho.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

7. In Sanidades d'Hela












7.

A série de trabalhos intitulada "In Sanidade" faz referência aos estados de saúde mental, física e espiritual, questionando: o que é sano e o que é insano?


Colocando a fruição e o fazer artístico como parte importante na questão da sanidade, além dos recursos que nos são disponibilizados em nossos núcleos sociais, como a medicina física e/ou de estética corporal, passando pelos processos de saneamento mental, psicológico e dos recursos terapêuticos alternativos, como, por exemplo, os religiosos ou ritualísticos, visando o saneamento espiritual.

Todos esses processos são passíveis de serem questionados, reavaliados e valorados, conforme o nível de evolução cultural, intelectual, de conhecimento, ou tecnológico de cada época ou sociedade.

Assim como se questiona: O que é Arte? Se pode questionar: O que é a sanidade, e quais processos nos colocam mais dentro ou mais fora dela?

A Arte Contemporânea nos permite ampliar abordagens para além de tudo aquilo que já presenciamos validado como Arte.

Os trabalhos dessa série foram iniciados durante tratamento psiquiátrico da artista.

Internada em uma clínica com diagnóstico de depressão profunda - após grave crise resultante de agressão psicológica em seu local de trabalho, advinda de uma série de fatores correlatos, culminando em ataque pessoal à integridade emocional da artista, por parte de um de seus alunos de uma escola noturna onde exercia suas atividades laborais como professora -, a artista dá início a uma série de desenhos sobre a paisagem do local e de alguns pacientes, funcionários e visitantes da clínica.

A série recebe o nome de "In Sanidade", num jogo de palavras que instiga o questionamento sobre todo esse processo vivenciado ali, numa clínica psiquiátrica.

A violência, seja ela física ou psicológica, sempre faz estragos em nossa saúde, porém, a medida dessa violência e o quanto ela possa vir a nos afetar, nem sempre está visível aos olhos dos observadores externos. É nessa questão que a violência psicológica se insere com mais ênfase e é a mais difícil de ser tratada, pois não é possível de ser apontada assim tão facilmente. Além disso, a sensibilidade de cada um faz doer mais ou menos esse ou aquele incidente, ocasionando consequências mais ou menos profundas, que vão marcando nossa personalidade. Somente cada um de nós pode dizer o quanto pode suportar de dor... e onde dói mais, se em nossas dores corporais ou mentais...

A ciência, dentro dela os ramos da medicina, vem, através dos tempos, buscando remédios para ambas as dores, muitas vezes os remédios foram, ou são, muito mais doloridos, pois somos as próprias cobaias nesse processo, não temos como escapar disso.

A Arte pode nos agredir com suas imagens, ferir suscetibilidades e ser até cruel no conteúdo nela exposto, mas sempre aguça nossos sentidos de alguma forma. Porém, nossos sentidos não são parâmetros para avaliar corretamente a realidade, por isso, quanto mais a Arte nos questione e nos faça pensar, mais poderemos ultrapassar nossas percepções sensoriais para chegar a real medida das coisas, com o nosso intelecto.

Mas, que medida é essa?

Que parâmetros temos, cada um de nós, para medir a sanidade das coisas?

Veja-se Gaza, por exemplo, entre árabes e judeus, entre a vida e a morte, entre o amor e o ódio, a compreensão e a incompreensão, as bandeiras políticas, religiosas, territoriais, filosóficas e culturais sacodem o planeta e perguntam:

- Onde está a sanidade humana???!!!

In Sanidades d'Hela, é isso: nunca parar de perguntar: por quê?

O que amenizam as respostas que se vão encontrando é a energia dispendida no ato de fazer Arte, de buscar soluções para problemas estéticos de aliar forma e conteúdo, quando se expõe a alma...

Olhe bem para minha alma, diz a artista em suas obras, mesmo quando tenta expor nelas as almas de outrém, e avalie o que vês com a mesma profundidade ali exposta, só assim a catarse será completa e alguma sanidade, para um, ou ambos, poderá vir a ser possível...

A partir dessa série e desses questionamentos aí surgidos, vários outros trabalhos, anteriores e posteriores a esse processo, são reavaliados e nela também posicionados, por fazerem parte desse todo. Porque a busca da sanidade não é estanque, nem prioridade nossa em um único período, ela perpassa toda a nossa existência, em todas as nossas relações, fazeres, amores e dissabores, alegrias e tristezas, o certo e o errado, buscamos sempre um equilíbrio. Os desequilíbrios nos colocam no lado oposto: no insano.

Mas o que é sano, e o que é insano?

Não sabemos, nossas referências são os outros e suas atitudes, mas os outros, ao que parece, também não sabem...

Último diagnóstico: bipolaridade. Mas, o que é isso? Pular-se entre o sano e o insano?

Alma, voa livre, tu não precisas de diagnósticos!

Um abraço,

Hela Amorim.