Chora a rede
A perda de seu amado
Há bem pouco o teve
Em seus braços entrelaçado
Num ato masoquista de amor
Sorveu-lhe a vida
Para manter-se útil perante seu senhor
E cai novamente na água
Pelas mãos de quem a criou
Procura desesperada
Enredilhar um novo amor.
Sabe que é efêmero o gozo
Fugaz prazer mórbido
A dilacerar-lhe as entranhas
Mas, vadia, perscruta as ondas
Transpondo-as sem pesar
Sabe que a qualquer momento
Um novo amor,
Num abraço mortal,
Vai levar consigo à bordo
E quando perceber seu destino
Vai chorar a perda do amado
Novamente
Sem ver o ato em si consumado
E vai condenar seu senhor:
- "Assassino, assassino!"
Porém, temendo a si
A mesma sorte
Deixa-se levar pelo algoz
- que não espera a última lágrima -
Já outra vez na água
Pede encarecida ao mar:
- "Leva-me a tuas entranhas, para que eu lá apodreça.
Não deixes que por uns peixes
Novamente eu padeça."
Lábia de tagarela!
Avista ao longe um cardume
E se põe à espera.
Mas, rompida a rede do que a prendia enfim
Um incauto se aproxima,
E diz:
- "Espera, mar, que eu vou com ela..."
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